«A mensagem que trago, é de partilha de histórias»

An interview with a participant: Interview with Mathilde Cotman «Nunca andei de avião. Nunca sai de Portugal. Através do grupo de autorrepresentantes tive esta oportunidade – Representar Portugal e todos os meus colegas com deficiência em Bruxelas. A cidade de Bruxelas é muito bonita, com muitas estatuas e jardins. É uma cidade muito diferente das que...

An interview with a participant: Interview with Mathilde Cotman

Cátia Freitas

«Nunca andei de avião. Nunca sai de Portugal. Através do grupo de autorrepresentantes tive esta oportunidade – Representar Portugal e todos os meus colegas com deficiência em Bruxelas.

A cidade de Bruxelas é muito bonita, com muitas estatuas e jardins. É uma cidade muito diferente das que conheço em Portugal. Esta cidade tem uma pequena particularidade que me chamou a atenção: não tem caixotes do lixo nas ruas, mas as ruas estão muito limpas.

A minha presença em Bruxelas, no Parlamento Europeu, prendeu-se com o tema da Violência nas mulheres com deficiência. Este foi o tema que discutimos e trabalhámos durante os 3 dias de conferência em Bruxelas.

Eu gostaria de conseguir parar a violência em minha casa.

Para mim, é um tema muito forte. Que me comove muito, mesmo quando escuto histórias de vida de outras pessoas que vivem este problema. Porque, eu própria sou vitima de violência. O meu ambiente familiar é muito difícil, discute-se muito, eu não posso dar a minha opinião e nem consigo, por medo, por vezes, até para pedir socorro é difícil, porque fico muito nervosa.

Eu gostaria de conseguir parar a violência em minha casa.

No segundo dia de trabalho, houve uma rapariga que partilhou a sua história que foi vitima, nesse dia chorei ao ouvir aquelas palavras.

Não consegui falar nada. Nem dizer nada para defender as mulheres que sofrem de violência. Para me defender.

Se falarmos, alguém nos há-de escutar

Eu tenho muitas dificuldades. Muitos medos. O que me bloqueia a forma de pensar e agir, porque fico muito nervosa e depois não consigo pensar falar, acabando por permitir que a violência exista na minha casa, não conseguindo tomar decisões.

Esta ida a Bruxelas, a uma cidade nova, a um país diferente, com novas experiencias, fez-me pensar em como, todos os países são diferentes, mas como, existem problemas tão difíceis em comum. Mesmo nas famílias mais ricas, mesmo nas melhores casas, nas melhores cidades, há violência e pessoas com deficiência que sofrem. Estas pessoas precisam de ajuda, precisam de conseguir partilhar os seus medos e de falar dos seus problemas. Para que, juntos possamos fazer a diferença e não permitir que mais pessoas (mulheres) com deficiência sejam vitimas diariamente.

A mensagem que trago, é de partilha de histórias. Aprendermos a falar.

Falar em grupo é muito importante e muito difícil para mim: não sei as palavras certas e não consigo me expor num grupo, sou atingida por um medo que me deixa branca no pensamento, perdida. Se falarmos, alguém nos há-de escutar e assim, podemos criar estratégias e formas de agir perante a vitima e evitarmos futuramente, que hajam mais vitimas.»

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